* Para quem gosta de poesia e muito mais de Raul Seixas, essa sessão é especial. Aqui você vai encontrar poesias escritas por Raulzito entre um período de 1970 até 1988. São poesias tiradas do Baú do Raul, que o acompanhava, e assim anotava tudo que fazia e pensava.

Sangrilégio (1970)

Eu acordo de madrugada
Eu acordo com quase nada
Areei meus dentes
Penteei os cabelos
Enxaguei meu rosto inchado
Me armei da 007
Me meti no paletó
Quase me enforquei no nó
Da minha gravata
Um beijo na minha mulher
E dezessete beijos e meio
Um em cada filho meu
Meninada que eu tenho estima e afeição
Eu sou bancário
Meu banco é de sangue
Eu sou bancário
Os olhos de Drácula
Pousam sobre mim
Firme , na escuta do PBX.

Poesia Sem Título (1972)

Eu não pertenço ao domingo ensolarado
Meu pijama branco e largo
Que eu arrasto pela sala
Pela sala de jantar

Já não m`importa , o que m`importa nesse instante
É o meu vagar constante
Sob o peso dessa estante
Que eu vasculho até dormir

Meu quarto escuro sob os olhos de coruja
Boca seca e roupa suja
O coração se enferruja
Ao contato do verniz

Eu não pertenço nem à flor nem à espada
Tenho é u`a fome desgraçada
Minha cara engarrafada
Mais parece um guaraná

17 de julho (1976)

O dia teima em amanhecer-me.
Os pombos da janela arrulham
Sem trazer-me o conforto
De uma mensagem audaz.
Desenho meus momentos
Sem ansiar por rimas.
Vozes veladas de veludo verde
Voa vento...
à vontade e despido
Nu ante as arquibancadas
Marina não se mostra
Oswaldo noctivagando...
Presa fácil da minha cerebrotônica labilidade
à terrível lucidez do medíocre.
Negar que é pestilento, jamais.
O mais e o mesmo são valoráveis.
Porém da nada se extrai
Da média-ocridade
Idade da pedra.
Me incomoda
A dúvida que, mascarada em cão,
Ladra e morde enfermamente.NÃO.
Não quero interferências banais
Interferindo no meu espírito.

Poesia Sem Título (1976)

A saudade é um parafuso
Que quando a rosca cai
Só entra se for torcendo
Porque batendo não vai
Mas quando enferruja dentro
Nem distorcendo não sai.

Poesia Sem Título (1978)

Pássaro negro
Corvo, por certo,
Solitário
Me olho de soslaio
Do muro do cemitério
Aí , eu olho pra ele
Fixo
Ela voa embora,
Mas volta.

I Need Something (1979)

Yes, I need something
I always need something
If it's a love
Or if it's a drink
Oh hell, i don't know
I just need something.

Eu preciso de alguma coisa
Eu sempre preciso de alguma coisa
Se é um amor
Ou se é um drink
Ó diabo, eu não sei
Só sei que preciso de alguma coisa

Tá faltando alguma coisa
Sempre tá faltando alguma coisa
Se é de mudança
Se é de esperança
Ó diabo, não sei
Só sei que tá faltando alguma coisa

Essa insatisfação que a gente sente
Ou solidão permanente
Tem que estar faltando alguma coisa.

Poesia Sem Título (1979)

Quero que venhas depressa
O tempo é pouco
Careço de partilhar meus delírios com você
Conheço lugares jamais penetrados
Misto de poeta e pirata
Só os loucos são capazes de voar
Não tenhas receio de mim
Quero Te levar aonde estou
Como poderei mentir-lhe
Se eu sou somente o que sou?

Poesia Sem Título (1979)

A casa de meu pai tem quatro quartos
A dupla que fez cada um de nós
Não gostaria de ver meu pai
Sem seu terno largo e folgado,
Nem mamãe sem seus velhos ditados
Seu mundo tão correto
Eu não me arvoro a mexer
Aquela sala de estar sempre arrumada, polida
E que nunca é usada
Não há nada pra trocar de lugar.
Daqui , bem longe de lá
onde faço meu lugar
Entro uma canção e um café expresso
Me falta a presença daquela gente
Meu velho conselheiro
Minha velha protetora
A falta de me entregar acriançado
Alegria de escutar a relíquia
De um disco antigo, mas inquebrável
O canto de ninar.
Quando volto para lá não levo roupas estranhas
Visto-me de filho
Traje especial do qual não me desfarço.

Poesia Sem Título (1981)

Enquanto o galo canta
De madrugada
O cigarro queima
No cinzeiro , a mosca
Zumbe no silencio quarto
Onde minha mãe trêmula
Escreve o que me requer
No papel em branco
Duma frágil culpa
Duma consciência barata tonta
Cheia de moinhos para fazer girar...
Minha filha dorme.

Vivian (Maio 1981)

Os olhos verdes que não puxaram a seus pais
Perninhas grossas no molde bem-feito da mãe
No mês de maio entre as flores nasceu ViVian
Em casa seu nome é "pipoca"
De tanto aprontar
Talvez muito dengo da vó e do Beto
Só quer a quentura do peito e do braço da mãe
ViVian!
Antes de ser batizada sorri para os anjos do céu
Do céu, da sua boca pequena
Com cheiro de flor igualzinha ao pai
da Vivian!
Fica zarolha olhando,
Aprendendo o que olhar
Fralda borrada, uma outra golfada
e um gargalhar...
Riso banguelo e eu me acabo de lhe amar
ViVian! oohh ViVian.

Pai Nosso da Terra (1981)

Pai nossa que estais na Terra
Simplificado seja o vosso nome
Está em mim o vosso reino
Que seja minha a vossa vontade
Bendito ou maldito
Se o que eu mato eu como
O pão nosso de cada dia
Dai sempre ao bom merecedor
Não perdoai ao devedor
Nem livrai o fraco do mal
Com vosso poder habitai na alma dos fortes
Senhor da máfia, deus dos deuses!
Pai nosso da Terra
Nada vos imploro, nada vos rezo
Mantende comigo vossa espada
Pai nosso da Terra!
Livrai-me da maldição dos fracos
AMÉM.

Poesia Sem Título (1981)

Papel de presidente dos USA
De Reagan seu melhor papel
Enquanto a conta aumenta, Brasil
A Amazônia ainda aguenta
A Rússia não quis emprestar
Dinheiro em troca de um campo de aviação
São doze pistas de pouso
E, em troca de ouro, prata e carvão

Se eu falo é tupi-guarani
Que lindo sotaque o daqui
O português é puro Latim
Nada de tupiniquim
Nada de Rio Ipiranga
Nem de margens plácidas
Precisou um portuga, xará
Pra gente estar no ponto que está.

Areia da Ampulheta (1981)

Eu sou a areia da ampulheta
O lado mais leve da balança
Cão vira-lata amordaçado
Fusca entre cadilacs
Morador do lado errado
Revólver de espoleta
Mais um do bloco dos sabotados
Da trovoada o pára-raios
Dos trovões
E lá vou eu , examinando
espionando
Vou tachado
Sou pesado - empacotado
rotulado
lacrado e despachado
numerado e condenado
censurado e ultrajado
Meu povo!
Como nos deixamos cair
em tamanha abjeção??

Para O ESTADÃO (1983)

Está na praça, já chegou
O dicionário do censor
Desde A até o Z
Tem o que você pode ou não dizer
Antes de pôr no papel
O que você pensou
Veja se na sua frase
Tem uma palavra que não pode
Você não queria assim... mas que jeito?
O dicionário do censor
É que decide , não o autor
Um exemplo pra você
Se na página do "P"
Não consta a palavra "povo"
É porque essa não pode
Vê se no "o" tem escrito "ovo"
Ovo pode...
Se o sentido não couber
Esqueça , risque tudo, compositor
Seu dever é decorar
As que pode musicar
No dicionário da censura
Nem botaram "dentadura"...

Eu Sou Apaixonado Por Você (1983)

Você não se penteia nem se pinta
- Eu sou apaixonado por você!
Você futuca a cara de espinha
- Eu sou apaixonado por você!
Você emagrece d'uma hora pra outra
- Eu sou apaixonado por você!
Engorda quando come macarrão
- Eu sou apaixonado por você!
Você é moça e tem bigode
- Eu sou apaixonado por você!
Você me crobra caro o seu amor
E nem é do tipo que eu gosto
- Eu sou apaixonado por você.

Poesia Sem Título (1984)

Estou sofrendo
Não compreendo nada
Nada me motiva
Tudo são repetições
Continuo bebendo
Estou infeliz
Preciso de alguém que acredite em mim
Não sei o que é ter fé
ordem , autoridade ou verdade
Respostas - perguntas
Três esposas vi partir
Não gosto de mim
não acredito em mim
Um vazio enorme
Inseguro
Solitário
Incapaz de lidar com o cotidiano
Cansado de ser
autodestrutivo
Desesperado
Tendências suicidas
Odeio meu rock`n`roll
penso em morrer...

Apesar dos Pesares (1887/1988)

Vou gostar de você
Como gosto do mar
Mergulhar em você
Me perder
Me encontrar.

Ai, como é linda essa vida
Apesar da miséria
Apesar dessa fome
Aquele beijo com gosto de coca
O meu coração bate e toca
Vale a pena viver.

Poesia Sem Título (1988)

Você roubou meu videocassete
E disse que foi um assalto
Você não quer deixar minha casa
Dizendo que empatou quatro anos de sua vida
Trabalhando como esposa.

Estão é assim que você se revela
Você nunca foi fiel a si mesma
Gênio ou poeta a sua fotografia
Vai se revelar na grande mentira que você é
Pra você mesma
Só você mesma sabe que não tem talento pra vida.

De Bom-Tom

O guia cita Caetano
Mostrando Santo Amargo,
as mãos em círculos
Tão dolente
Tão emoliente
Sob a chuva leve,
que filtra
É a água estelar destes versos
Murmura fluxo irrevogável
"Então, Senhor , Soa agradável?"
Um aceno de cabeça
"Sim, ... como não..."
Bahia tem má memória
Na discoteca dos burgueses agora
Deus em pessoa o determina
Caetano impresso em microssulcros
Agradável!
Tomar batida de limão
Enrolar um cigarro
e acompanhá-lo em voz alta
com langor.
Venerar Veloso
é de bom-tom!
Agradável?
Dos silos da memória
Tiro minhas lembranças,
não as suas
Veloso jamais te agradou
Estranho, como tudo mudou
Ele não se amoldava
ao umbral
Dos preceitos falsamente virtuosos
Ao contrário, abusava do fumo
Era para vocês amoral
Faço um julgamento em base?
Torces a cara...
Não é mesmo agradável?

Matou-o de lento estertor
Tudo isso , senhores
Matou-o tudo que o agredia
Como zombarias por trás da geral
Do Cinema Olimpia
Matou-o sua moral tacanha
Queimando-o por dentro
nas entranhas
Vocês são amigos do charro
Como Veloso
e de panças repletas
comandaram o assassínio dos poetas
para depois citá-los

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