por Luciana Ackermann

É dificil encontra alguém que tenha conhecido Raul Seixas e saído desse relacionamento sem alguma história interessante pra contar. Alguns ficam emocionados ao lembrá-las. Outros não param de rir. O Raul que se revela na recordação de seus amigos mais íntimos é uma pessoa de personalidade forte e vibrante, com muito apetite para viver os 44 anos que lhe couberam.

O RAPAZ SEM BRAÇO E O SHOW PARA OS PINGUÇOS

"De repente , chegou um rapaz dizendo que era compositor , tocava violão e gostaria muito de poder mostrar seu trabalho. Mas ele não tinha o braço direito. Ficamos meio sem jeito , olhando para o cara , até que o Raul lhe perguntou : 'Ah, é? E o que o senhor quer que eu faça?' O rapaz , com muita humildade, respondeu: 'Seu Raul, o senhor faz o ritmo e eu as posições'. Não dá para explicar o carinho com que Raul ajudou o rapaz. Ele ficou abraçado, quase pendurado por trás do cara, fazendo o ritmo com a mão direita, enquanto o cara mudava os acordes com a mão esquerda. Foi uma cena linda. "

Essa história foi contada por Mauro Motta, um dos melhores amigos de Raul Seixas. Vizinhos de quitinete, produtores da CBS, Mauro o Raul dividiam muitos pratos feitos durante os primeiros tempos da vida profissional. Período em que Mauro pôde reconhecer bem o caráter de Raul , que incluía o apego às pessoas simples. Outra demonstração disso aconteceu em Guabimirim , no Rio de Janeiro. Os dois ficaram bebendo até pouco mais das 2 da madrugada e depois foram durmir. Mas , por volta das 5 horas da manhã, Mauro acordou e reparou que o amigo havia sumido. "Olhei para toda a casa , por todo o quintal e nada. Então, decidi sair com o carro para procurá-lo. Comecei a ouvir um som de longe, desci e vi um cara magro de calsa jeans, sem camisa , descalço , com um chapéu de São João cheio de fitas coloridas e um violão, catando Elvis Presley no meio de um monte de pinguços. Os caras nem sequer imaginavam que aquele era o Raul Seixas. E ele estava na maior alegria, feliz da vida. Na hora em que me viu falou: 'Tratanius -era a forma como chamávamo-nos - , vem cá tomar uma cachacinha comiho' . E cantou pra galera até o dia amanhecer."

PAPO DE DOIDO, MOLECAGEM NO ALTAR E MENSAGEM PÓSTUMA.

Raul tinha também uma incrível capacidade de surpreender. O cantor Jerry Adriani - responsável pela ida de Raulzito e Os Panteras para o Rio, em 1968 - não esquece uma história.

"Uma vez estávamos passeando em São Conrado e de repente Raulzito sentou-se na calçada e começou a bater papo com um mendigo , que não falava coisa com coisa. O papo nunca terminava. Eu dizia que tínhamos de ir embora , mas ele não queria sair dali e continuou a conversar como se fosse a coisa mais séria do mundo. Eu me aproximei para tentar ouvir sobre oque eles conversavam , mas não dava para entender nada. Ficaram uns quarenta minutos nesse papo doido. "

Noutra época, Raul inventou um personagem chamado Queixada , que ao ficar nervoso trazia o queixo para a frente e falava baixinho. Jerry Adriani conta que aquele jeito de falar virou mania entre os dois. "Ná época em que foi perseguido pelos militares, Raul passou aproximadamente uma semana em minha casa. Mas , num belo dia , sumiu. Saí procurando-o por tudo quanto é lado. Fiquei muito preocupado, pensando que ele poderia ter sido preso.Quando já não sabia mais onde procurá-lo, olhei sem querer para um táxi, em Copacabana, e ali estava o Raul se escondendo de mim ao mesmo tempo em que fazia o Queixada. Perguntei: 'Mas o que é isso , Raul?' E ele respondeu: 'É que lá na sua casa tava muito tranquilo pra mim'."

A história do casamento de Jerry também merece ser contada. A cerimônia, para a qual o noivo convidou apenas as pessoas mais chegadas, tinha uma lista de convidados na qual , por descuido, o nome de Raul acabou não entrando. Quando ele chegou, o porteiro quis empedir sua entrada. Raul não titubeou, disse que era o padre que celebraria a união do casal. Como estava todo vestido de preto , o porteiro acreditou. Jerry conta o final da história: "De repente , começou um tumulto, uma confusão. Fui ver o que acontecia e era o padre de verdade reclamando. Ele dizia ser um absurdo contratar dois sacerdotes para uma mesma celebração. Desfeito o equívoco, apresentei Raul ao padre , que o chamou para ser o coroinha da cerimônia, e deu um sino na mão dele. O casamento rolando e o Raul tocando aquele sino sem parar. O padre não aguentava mais o começou a dizer que aquele menino tinha de ser exorcizado. Para 'salvá-lo', começou a jogar água benta nele , que não perdeu a pose e continuou a fazer graça no altar".

Dois anos e meio atrás, no dia 29 de janeiro de 1997, Jerry Adriani recebeu uma mensagem de Raul Seixas. Dizia o seguinte: "Bicho, foi difícil, mas consegui. Cuide dos que como eu se perdem nas drogas. Meu irmãozinho, a saudade é grande, mas estou bem. Compreendo a vida. Estou vivo. Sempre achei que era assim, mas é muito melhor. Temos que ter responsabilidade com o nosso corpo. Um abraço do seu irmãozinho Raulzito". Era uma mensagem psicografada. Jerry explica: "Frequento um centro espírita no Rio de Janeiro e ali é comum receber mensagens desse tipo. Mas o curioso é que a pessoa que psicografou esse texto é uma senhora de idade, que nem sabe como era a linguagem de Raul Seixas - e ele realmente falava muito 'bicho' e me chamava de irmãozinho".

O PRIMEIRO BASEADO

Leno Azevedo, que gravou com Raul no começo dos anos 70 , lembra de uma vez em que estavam na casa da tia de Raul, dona Maria Angélica: "O filho dela , o Horácio, que é surfista e vive no Havaí , convidou discretamente eu e Raul para ir até seu quarto, colocou Jimi Hendrix para tocar e falou: 'Olha só... Isso aqui é um baseado... Acendeu e passou para a gente'. Depois de fumar, ríamos sem parar. Fumamos outras vezes no estúdio, durante a produção e gravação do álbum Vida e Obra de Johnny McCartney, que acabou sendo censurado. Mas não éramos , o negócio do Raul era só a música, essa imagem de 'doidão' não correspondia à verdade".

Desta faze, Leno não esqueceu os momentos de criação. "Ele vinha aqui em casa e fazíamos músicas bem diferentes dos hits românticos que eu cantava e do ie-ie-ie que ele escrevia e tocava. Queríamos crescer como artistas e mostrar novas possibilidades. Lembro do Raul dizendo que Sentado no Arco-Íris, do álbum de Vida e Obra de Johnny McCartney , era a primeira letra que se orgulhava de ter escrito."

TENTANTO GANHAR RITA LEE EM NOVA YORK

Rita Lee, que interpretou Raul Seixas no curta-metragem Tanta Estrela por Aí, certa vez recebeu dele uma "cantada" em inglês perfeito. "Eu estava andando pelas ruas do Soho, em Nova York, e vi o Raul vindo em minha direção. Ele tinha mania de se passar por americano quando estava no exterior. E não me reconheceu porque eu havia trocado recentemente o loiro de meus cabelos mutantes por um vermelhão. Além disso, estava com óculos escuros e roupa de hippie, daquelas bem rasgadonas.Então , ele passou por mim e começou. 'Hi love , my name is Roger'. Não acreditei, responde: 'Raul, você é bem cara-de-pau mesmo, hein? Vou contar tudo pra sua mulher!' Ele tomou um sustão , mas depois me reconheceu e caímos na gargalhada."

Também uma história de caráter espírita liga Rita a Raul. "Quando faziámos o curta-metragem, ele realmente 'baixou' em mim e eu disparei e falar e desticular igualzinho a ele. Nem eu mesma me dei conta disso. Todos ficaram espantados com a semelhança. O Sylvio Passos, presidente do fã-clube, ficou tão impressionado que me deixou até usar as roupas do Raul que ele tinha. E , para espanto geral, tudo cabia em mim perfeitamente, até a calça de couro e as botas vermelhas. No fim das filmagens, cadê de Raul me deixar me deixar em paz? Eu falava assim: 'Raul , meu amor , agora chega, vamos descansar, vai!' E nada , o cara tava lá instaladão no meu 'cavalo' , e eu sentia o tempo todo , mandei até celebrar uma missa para sossegá-lo. Só depois que fui ao túmulo dele , em Salvador , é que as coisas de resolveram."

DESLIGADO E REVOLTADO

Para o músico mineiro Zé Geraldo, uma das passagens mais emocionantes de sua vida ocorreu durante uma visita que fez a Raul , quando este ainda motava no bairro do Butantã, em São Paulo: "Cheguei à casa do Raul e ele estava superenvolvido com o desenho Jeannia É um Gênio. Não deu a mínima nem para mim nem para o Eduardo, que era de um fã-clube e estava comigo. Ficou deitado no chão com uma toalha enrolado no pescoço , um copo de cerveja e um cálice de steinhaeger ai lado, dando risada com o desenho. Ficamos ali um tempão, meio sem saber o que fazer. Quando já pensávamos em ir embora, ele levantou ,cumprimentou a gente , mas não me reconheceu. Fomo a uma outra sala e ele mostrou a música Não Quero Mais Andar na Contramão, que na época havia sido censurada por falar abertamente do consumo de drogas . Lena Coutinho, que estava junto, falou de mim para ele, para ver se ele me reconhecia. Raul ficou pensativo e olhando-me disfarçadamente por debaixo dos óculos. Quando sacou quem eu era , foi incrível. Pegou minhas mãos, chorou muito e reperiu várias vezes que eu estava lindo. Anos antes, eu havia perdido minha mãe e tinha tido problemas seriíssimos com a bebida. Fiquei muito mau. Mas , quando estive na casa de Raul, estava completamente sem beber. Esta foi uma passagem inesquecível da minha vida".

No final dos anos 70, início dos 80 , Zé Geraldo e Raul gravaram na CBS e os dois geralmente saíam juntos para divulgar seus discos. Numa dessas vezes, foram a uma rádio no ABC. "De quadra em quadra , Raul tirava uma garrafinha do bolso e bebia. Naquele dia, ele estava revoltado com alguma coisa e , quando chegamos à rádio, fez o maior discurso político . Depois disso , o divulgador suspendeu a agenda e o levou ao hotel. Mas , quando cheguei à CBS, a secretária disse que Raul estava na Jovem Pan metendo o pau no sistema , fazendo o mesmo discurso de antes."

INTERNADO DURANTE A PRODUÇÃO DE COWBOY

Rick Ferreira, chamado por Raul de "Rickinho, meu fiel escudeiro" , foi o guitarrista que mais tempo tocou com o Maluco Beleza. Conta que , durante a produção do disco Cowboy Fora da Lei, em 86, precisou ir várias vezes à Clínica Tobias, onde Raul permanecia internado por causa do alcoolismo. "Chegou a um ponto em que não podia mais sair de lá para ir ao estúdio, porque sempre convencia o motorista a parar nos bares do caminho e já chegava bêbado na gravadora", explica o "escudeiro" . Rock Ferreira revela que nessa época evitava fazer shows com Raul: "Tinha 21 anos , meu negócio era tocar. Ficava com muito medo da polícia. Sempre tinha uns caras de terno que ficavam bem na frente do palco durante os shows. Raul era um cara inocente, mas passava agressividade na época da Sociedade Alternativa".

INSUCESSOS COM RONNIE CÓCEGAS

Outro amigão de Raul foi o humorista Ronnie Cócegas. Moravam na mesma rua, frequentavam a mesma escola de música, os mesmos bares e restaurantes, jogaram capoeira e fizeram vários shows junto. "Tocávamos em Feira de Santava e em Itabuna. Não tinhámos nem nome e não faziámos sucesso nenhum" , contou o humorista.

A Mãe de Raul , dona Maria Eugênia, pedia que Ronnie diexasse seu filho em paz, pois não queria que ele virasse artista. Ronnie guardou a lembrança: "Ela queria que Raul fosse para os Estados Unidos, estudar e se tornar doutor. Mas eu dizia que não era eu quem o levava, era o Raul que adorava música e era ele quem me chamava para tocar. De fato , eu era baterista de uma banda que tocava numa boate de hotel em Salvador e o Raul sempre assistia às apresentações escondido em um cantinho, pois era menor de idade e não podia frequentar o lugar". ( Este depoimento foi dado pouco antes da morte do humorista. )

ASSUSTADOS NA SELVA

O músico Nenê( dos Incríveis , que tocou com Raulde 85 a 86 ) lembra de uma vez em que foram para a selva amazônica, no meio do garimpo, fazer um show. "Bebemos durante a viajem inteira. Foi preciso até pegar um jato e depois um Bandeirantes daqueles que agente senta no chão. O lugar onde nos apresentamos era um puteiro horroroso. Não sei de onde surgiu essa idéia de irmos para lá, mas , como tínhamos bebido todas , estávamos levando tudo na brincadeira. Até o momento em que vimos que todos ali andavam com um 38 na cintura. A bebedeira passou rapidinho. Até o Raul ficou careta. E fizemos o show bem direitinho."

Para Nenê, nenhum artista tem atualmente o carisma que Raul tinha: "Já toquei com figuras como Roberto Carlos e Elis Regina, mas nunca vi nada tão forte como o que acontecia com Raul Seixas. Uma vez ele deu a maior canceira na gente em um show em São Caetano. O clima era muito tenso. O público já havia quebrado o alambrado. Não , da banda , estávamos na maior neura. Coloquei meus filhos , que era crianças, em clima da caixa de som. De repente , chega um Fusca branco no meio do estádio lotado. Todo mundo parou. Quando Raul saiu daquele Fusca, vestindo um terninho branco , parecia que tinha chegado um deus".

SUCO DE VODCA E MCDONALD'S

Marcelo Nova , que acompanhou o início da carreira de Raul na Bahia como fã e depois tornou-se parceiro e amigo , relembra que ia aos shows do Raulzito e Os Panteras para ouvir Rock`n`Roll e "pegar umas menininhas" , mas que no final acabava chupando o dedo porque só Raul e seus panteras é que se descolavam. "Elas só queriam dar para eles. Raulzito fazia o maior sucesso".

Em 72, Macelo tomava água de coco numa praia de Salvador, quando chegou um magricela cantando: "Eu devia estar contente. Porque eu tenho um emprego. Sou um dito cidadão respeitado..."."Não reconheci o cara mas achei aquilo um grande barato. Na hora até pensei que fosse o Odair José. Só depois , quando ouvi a música inteira no carro , consegui pegar a letra e sacar que aquele cara era o Raul".

Apesar de toda essa afinalidade musical, Marcelo Nova e Raul Seixas só foram se tornar amigos em meados dos anos 80: "Num belo domingo , umas 11 horas da manha, ouço a campainha, abro a portae lá estão Raul , Lena Coutinho, Toni Ozannah e sua mulher. Havíamos trocado endereço naqueles dias num show dele, em São Paulo, mas nao imaginava que pudesse pintar em casa. Posso dizer que foi ali que se iniciou nossa amizade. Passamos o dia inteiro juntos e uma semana depois retribuí a visita. Era aquela troca de figurinhas, em que cada um falava sobre os discos e músicos que gostava . Nos reuníamos para ouvir rock`n`roll. Era maravilhoso. Pouco depois fizemos juntos a música Muito Estrela , Pouca Constelação , referente àquelas várias bandas de rock que surgiram nos anos 80. Depois de dois anos começamos a fazer várias músicas que resultaram no disco A Panela do Diabo".

Marcelo também não pode deixar de comentar o fraco de Raul por um drinque, e conta a resposta que recebem dele certa vez, por tê-lo censurado por beber de manhã: "Porra Raul, você já vai beber?" 'Ô , Marceleza, é só um suquinho...' Na verdade era um copão de vodca com umas gotas de suco de laranja . Aí, para me sacanear , porque não bebia e não bebo nada, ele dizia: 'Deixa eu tomar meu suco que depois vou ao Mac Donald's com você , tá?' Nos shows , ele também reclamava: 'Porra , Marceleza , só tomam água aqui nessa merda".

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