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Contos do Rock #13
Jay Vaquer

Quando eu estava trabalhando com o Raul Seixas no Brasil em 1977, era diretor da gravadora Philips na época, o compositor Roberto Menescal, que me pediu para produzir um novo disco de Rock para o Raul.

Desde o lançamento do disco anterior, "20 Anos de Rock" que foi um grande sucesso, eu não só, fiz todos os arranjos, mas também como músico toquei guitarra em todas as faixas do disco.

O Roberto Menescal sabia que Raul Seixas iria mudar de gravadora, e que voltaria a trabalhar com o seu primeiro produtor Marco Mazzola.

Mazzola estava na nova gravadora de André Midani a WEA Brasil, e por certo que seria a última produção do LP de Raul Seixas pela Phonogram.

O título daquele trabalho iria se chamar "Raul Rock Seixas".

Raul escolheu as músicas, e comecei a fazer os arranjos. Porém, enquanto estávamos dentro do estúdio, eu queria experimentar um novo processo de gravação.  Recordo-me que em gravações anteriores, sempre ouvia alguém reclamando do volume de meu amplificador que estava alto demais.

Inùmeras vezes percebia que o técnico de som não sacava muito bem da melhor calibragem para ROCK pesado.  Entretanto, confesso que eles sempre usarem o melhor microfone, como os Neuman U-47's, para captar o som de minhas duas caixas Marshall que estavam aclopadas a um amplificador Marshall de 200 watts. Pois o som que dali saí era realmente muito alto.

Os microfones Neumans decididamente não aguentavam a pressão do som. E eu dizia a todos aps presentes no estúdio que quando se abaixava o som, eu perdia o pêso. Lembro-me de dizer a todos, que eles deveriam era usar mesmo microfones baratos, seria melhor... Isso gerava sempre briga e discussões! Creio que a turma provàvel-mente devia ficar pensando que eu devia ser um gringo muito doido...  Pouca me importava o que poderiam pensar, queria eu na verdade o melhor som para o nosso trabalho.

Bem, como eu era o produtor, arranjador e o guitarrista, eu colocava o melhor é claro. Os Microfones Shure 58's e pronto. Ali estava portanto, o verdadeiro pêso gravado na fita.

Também dobrava as guitarras de base nas pistas diferentes, e quando ouvia os playbacks sabia que iria ser o primeiro disco feito no Brasil com bastante pêso.

Lembro-me bem que o Roberto Menescal na época havia designado o Sérgio Carvalho, para que ele na qualidade de produtor executivo, cuidasse de todos os aspectos burocráticos. Como por exemplo, marcando datas para gravações no estúdio, pagando músicos, etc.

Raramente o Sérgio se encontrava no estúdio durante as gravações, e por essa razão, não sabia exatamente o que nós estávamos fazendo. Certa ocasião quando já estávamos chegando bem próximo da fase de preparar para a mixagem, um amigo de Raul Seixas, da Bahia, apareceu no estúdio. Fomos apresentados a ele, era o Wilson Rodriques, um empresário.

É bem verdade que desde que Raul Seixas atingiu a fama com o sucesso "Krig-Ha-Bandolo", ele ainda não tinha apresentado nenhum show em Salvador, sua cidade natal.

Wilson no entanto, queria levá-lo com toda a turma para uma excursão por duas semanas, fazendo shows pelo caminho, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, e em algumas cidades do interior da Bahia, finalizando a apresentação em um final de semana na cidade de  Salvador.

Raul negociou o contrato, e falou para o Roberto Menescal que nós iríamos voltar num prazo de duas semanas, e é claro que terminaríamos a gravação do "Raul Rock Seixas."

Logo em seguida, no começo da primeira semana viajamos. Foi ótimo, fizemos logo um show, com um grande e animado público num campo de futebol perto de Minas Gerais. Depois pegamos a estrada rumo a Bahia onde já tínhamos agendado um show no meio da semana. Em Salvador estava programado para o final da semana.

Paramos num desses hoteis de beira de estrada, onde descansamos por dois dias. Na manhã seguinte Raul Seixas resolveu mandar o motorista dele,  Antonio, de volta para Rio de Janeiro. Antonio tinha a missão de ir buscar um carro novo comprado por Raul. Um belo automóvel para a época, era um Dodge Charger na côr vermelho, motor V-8, carro grande, rápido e bonito.

Raul queria presentear seu pai com aquele carro. Após o café da manhã, Antonio seguiu viagem em busca do carrão.

Eu e Raul estávamos olhando para uma montanha que estava do outro lado da rua. Na verdade eu e Raul sentíamos sempre muito prazer em escalar pedras grandes, gigantes mesmo na cidade do Rio de Janeiro - não como os profissionais com cordas e mais todo aquele aparato especialzado - mais como amadores e curiosos, mas nós subíamos até uma boa altura, e que dava para morrer se de lá rolassemos.

Raul calculava um tempo médio de três horas aproximadamente para se subir, e de umas duas horas para voltar. Ninguém queria ir conosco. Só eu e Raul para curtir tais aventuras.

Escalávamos sem muitos mantimentos, levávamos apenas água, uma pequena faca, alguns pedaços de corda, um maço de cigarros e fósforos. Começávamos a subida por volta das 10 da manhã.

Raul começou liderando e desbravando o caminho, como se já o conhecesse. Caminho muito sinuoso por sinal. E curioso que a vegetação mudava na medida em que se ganhava altura, dava na verdade uma boa sensação.  No caminho havia um capim alto, que se transformava num tipo de apoio onde nós tínhamos que deitar no chão de barriga, e escorregávamos nas trihas dos animais.

De repente já eram 4 horas da tarde, e notamos que bem em frente ao hotel havia muita gente acenando e gritando algo para nós dois. As pessoas estavam tão longe de nós que pareciam até formigas, tal era a distância em que nos encontrávamos. E não dava decidamente para entender o que eles estavam dizendo. Mais uma delas começou a subir atras de nós.  Não nos importamos muito, e continuamos a subida, e já estávamos quase que chegando na parte superior da montanha onde só havia pedras sem qualquer vegetação.

Já anoitecendo, perto das 6 horas da tarde, chega um menino - ele subiu em duas horas um trecho onde Raul e eu levamos quase 8 horas.

O menino trazia uma mensagem, um aviso de amigo é claro. Pois aquilo para mim e Raul era completamente desconhecido. Dizia-nos que aqueles caminhos que estávamos percorrendo era na verdade uma trilha de cobras - venenosas naturalmente, com suficiente capacidade de nos matar, e que tomassemos muito cuidado, pois as cobras estavam dormindo justamente nas pedras por onde nós estávamos passando. Realmente corríamos risco, um grande perigo.

Como já estava escurecendo o menino disse que iria nos mostrar um caminho mais seguro para voltarmos, e que ficava do outro lado da montanha.

Já estava escuro quando chegamos ao cume da montanha, e tanto o hotel como as casas apareciam como pontos de luz lá em baixo. O menino nos orientou dizendo haver uma estrada em direção ao hotel. Que ela ficava do outro lado da montanha, porém, para se chegar até lá, nós tínhamos que atravessar um pântano. Realmente comecei a sentir aquela altura que vivíamos uma grande aventura.

Já estava totalmente escuro, não era nem mesmo noite de luar. O menino disse que deveríamos correr, apressar o nosso passo, pois assim procedendo evitaríamos que animais nos pegassem em seu habitat natural.  O menino era ágil e correu ràpidamente com Raul, eu vinha logo atras.

Eu vestia uma bermuda e estava sem camisa. De repente minhas pernas começaram a coçar, e tinha eu a nítida sensação que estavam queimando.  Pedi aos meus companehrios para fazerem algo...

Passava água do pântano e não ajudava.  O menino nativo daquela região, orientava, para passar no corpo a lama retirada do fundo do pântano, e que continuasse a correr. Puxa vida...!  Agora vinha  aquele capim alto do pântano. Aquilo fazia os meus braços e rosto queimarem, ficavam ardendo, como se estivesse em brasa.  Mas não havia outra maneira, continuamos correndo, passando lama pelo corpo todo e correndo até encontrarmos a rua.

Percebi que não era mais necessário correr tanto, minha perna e outras partes do corpo já estava començando a sangrar de tanto coceira. Ufa! Finalmente, chegamos no hotel. Lá estava Wilson, com o dono do clube onde íriamos nos apresentar no dia seguinte.

Aquela altura, eu e Raul estávamos com sêde, fomintos, e completamente cobertos de lama e não queríamos dar satisfação a ninguém. Depois de um bom banho, o dono do hotel trouxe algumas pomadas, remédios caseiros, para tentar aliviar os fortes arranhões que conseguimos na empreitada de escalar morros.  Wilson e o dono do clube nos levaram  para jantar, a fome era realmente canina, e depois, a uma rádio local para darmos entrevista.

Depois, nos levaram a um puteiro, onde tive o melhor sexo da minha vida. Não peguei doença venéria.

No dia seguinte, fomos para o local do show. Quando o show terminou, Antonio já estava de volta com o Dodge Charger. Raul queria ir direitamente para Salvador. logo depois do show. Raul estava bebendo, e disse que conhecia muito bem a estrada. Na verdade, essa foi a viajem mais aterrorizante da minha vida.

Aquele Dodge vermelho ia voando baixo naquelas estradas. Estradas bem fodidas do interior da Bahia, com vacas e cavalos pelo meio da estrada, buracos, verdadeiras crateras que aparecem de repente, e todos nós tentando ajudar Raul, que não parava de beber. O grande risco de um forte acidente... Viajamos a noite toda. Quando o sol já estava raiando, e como por milagre chegavamos em Salvador.

Wilson já havia feito reservas no hotel Velha Bahia, local onde muitos artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil ficavam.

Raul então resolveu que este não era o melhor hotel da cidade, decidindo ir para o Hotel da Praia, mais moderno, estava novinho, tinha acabado de inaugurar. Ficava bem em frente a praia.

Em lá chegando, Raul pediu as duas suítes presidenciais. Raul e eu iriamos ocupar uma delas. O Álvaro ( baixista do conjunto), Robson ( baterista) e Antonio iriam ficar na outra. Logo em seguida após nos acomodarmos, Raul quiz ir imediatamente para a casa de seus pais, e dar o carrão de presente a seu velho pai. Eu estava totalmente gasto, e só queria dormir. Raul então levou consigo Álvaro e Robson.

Decorridos umas duas horas, alguém batia a minha porta. Ao abrir, era Robson, todo histérico. Dizia que Raul foi para casa e que já teria entregue o carro a seu pai.

Mas que depois Raul teria dito que iria levar o carro de volta para o hotel, e que só voltaria após o almoço. Quando Raul já estava de volta ao hotel, que ele teria parado num sinal vermelho... Ai , algumas pedestres que estavam esperando pelo ônibus reconeceram Raul e começaram a gritar - Raul Seixas...Raul Seixas.  E que quando o sinal abriu, que Raul queria se exibir aos fãs, acelerando ao máximo o motor, com o pedal bem no fundo. Os pneus trazeiros do Dodge produziram uma grande fumaça, que o carro na verdade parecia o space shuttle Challenger.

Quando o carro chegou no meio da cruzamento, Raul perdeu o contrôle e bateu num poste de luz. Um cara que estava encostado no poste, saiu voando, enquanto o poste quebrou ao meio, e o carro ficou totalmente destruído.

Um policial que estava por perto, logo chamou uma ambulância. Raul saiu ileso, estava bem, nada sofreu pela imperícia, mais o cara do poste estava com um braço quebrado.

Raul ficou com mêdo de ser processado e entrou na ambulância indo direto para o hotel.

O reboque levou o carro para ferro velho (junk). Eu disse para Robson que eu não podia fazer nada e que por favor me deixasse dormir, estava morto de cansado. Voltei para a cama e fui tentar dormir. Aí se passam mais uma hora e alguém estava batendo novamente a minha porta.  Fui atender, desta vez era o Álvaro, dizendo que eu tinha que ver algo na sala. Quando eu olhei, era o Robson rolando no chão de risada apontando para a janela. Lá estava Wilson, de terno e gravata, olhando para as garotas de biquini na piscina que ficava bem embaixo da janela, com a pica na mão se masturbando feito um adolescente doido, babando e falando besteiras.

Realmente, eu fiquei assustado ao ver aquele comportamento. O Álvaro começou a rolar no chão dando risadas. Nesse momento, a porta do quarto se abre e Raul entra na suíte.

Ele me viu meio dormindo de cueca, Álvaro e Robson no chão, e Wilson tocando uma punheta. Raul foi calmamente até a geladeira, abriu a porta, pegou uma cerveja.

Em seguida deu um chute de karatê, quebrando a porta completamente, fora o resto da geladeira. Ele pegou a porta e jogou com toda a fôrça quebrando um espelho enorme da suíte.

Eu fechei minha porta e voltei para cama, estava desesperado de sono.

Depois de algum tempo, o barulho era muito grande. desta feita era Raul que estava destruindo o quarto. Passou mais uma hora e de novo alguém bate na porta. Dessa vez era Antonio. Dizia que a gerente do hotel havia nos expulsado, para pegarmos nossas coisas e sumir dali. Antonio me levou para a casa da tia de Raul e finalmente lá eu consegui dormir, ufa!.

 Na Dia seguinte, por incrível que possa parecer o show saiu perfeito, com casa lotada. A mesma coisa no show do dia seguinte.

Antonio, Robson e Álvaro foram pagos e voltarem para o Rio. Eu e Raul ficamos mais um dia em Salvador para pagar as multas do acidente e os danos causado ao hotel, que montavam em quase dez mil dolares. Nós voltamos para Rio sem dinheiro.

Ao chegarmos ao Rio, descobrimos que Roberto Menescal havia ordenado ao Sérgio Carvalho para mixar nosso trabalho "Raul Rock Seixas".

Menescal ficou sabendo dos acontecimentos em Salvador e talvez pensou que Raul seria prêso ou que não iria acabar o disco - não sei porque ele não nos esperou.

Sérgio não sabia que algumas faixas estavam com a voz guia de Raul. ele não sabia do lance das guitarras e nunca tinha ouvido o pêso em dois canais.

Ele mixou a guitarra sem pêso, deixando solos instrumentais totalmente fora. A música "Lucille", de Little Richard, saiu sem a caixa da bateria tocando em 2 e 4. Era para ter outra novidade - duas caixas, mas, coitado do Sérgio, fez o que podia sem saber ao certo nada do projeto.

Para mim, ele prejudicou o tralbalho, destruindo o LP. Eu estava realmente puto da vida, porque finalmente meu nome estava num LP de Raul como produtor, arranjador, e guitarrista, e meu trabalho foi muito mal representado.

Não era o que eu pretendia.  Não sei como começou a mentira de que esse LP teria sido feito de sobras de estúdio. Mas essa é a pura verdade dos fatos. Agora você fica realmente sabendo a verdade sobre o LP "Raul Rock Seixas".

Foi pura ironia a foto escolhida para a capa, foi uma de minhas fotos. Eu tirei a fotografia de Raul Seixas em New Orleans-USA, quando nós estávamos procurando local apropriado para as filmagens do "O Triangulo Do Diabo".

Vejam as fotos restantes no "O Triangulo Do Diabo" ou pela internet.